terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Nuance

Naquela balada éramos só um
No meio da semana
Na vida a dois
Nunca mais
No domingo escalávamos montes
Nem sempre chegávamos no topo
Não importa
Nunca mais
Nesse meio tom meia boca
Nua, calada, seca
Nu, forte, insano
Negávamos o ronronar dos órgãos
Nunca mais
Nem andávamos perto
Na hora do almoço era sagrado
Nada além de nossos corpos
Nossa melhor receita
Nunca mais

Paula

Que sorriso bonito
Tem cor de mel
Não sei
Talvez café

Ele era meio torto
Na verdade, muito
Mas o era porque não tinha pretexto
Aí foi ficando amarelo

Depois saiu de verdade
Aí já era mais clarinho
Tinha motivo
Ficou dourado, todo bonito

Olha! Tem até cheiro
Cheiro de maçã
Bateram um retrato
Chamaram de "aquarela"

Um dia, quem sabe

Saiu a hora do começo
Era cinco da tarde
Mais cinco minutos de atraso
Nem mais um segundo

Somavam-se três ou quatro
O tempo passa?
Toc, toc
Chegou

A vida lá fora tem gosto de que?
Melhor esperar
Tic, tac
A hora chegou

Sempre a mesma história
O começo adiado, remarcado
Só esperando ser recomeço
Um dia, quem sabe...mas melhor esperar

Difusão

Era mês de outubro
As árvores nem tinham folhas
Ela balbuciava letrinhas miúdas
Quase nem tocava os lábios

Num instante percebeu um clarão
Olhou toda espantada
Ela sussurrou
"Queria ser o sol"

Meio dia e ela sentada
Tocou uma música
Ela levantou e falou bem baixinho
"Vou ser o sol"

Quatro da tarde
A música parou
Ela fechou os olhos e disse
"Ele agora sou eu"

No meio da noite
Ela tinha mechas no cabelo
Nem precisou gritar
Ela era ele