Naquela balada éramos só um
No meio da semana
Na vida a dois
Nunca mais
No domingo escalávamos montes
Nem sempre chegávamos no topo
Não importa
Nunca mais
Nesse meio tom meia boca
Nua, calada, seca
Nu, forte, insano
Negávamos o ronronar dos órgãos
Nunca mais
Nem andávamos perto
Na hora do almoço era sagrado
Nada além de nossos corpos
Nossa melhor receita
Nunca mais
Flores de novembro
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Paula
Que sorriso bonito
Tem cor de mel
Não sei
Talvez café
Ele era meio torto
Na verdade, muito
Mas o era porque não tinha pretexto
Aí foi ficando amarelo
Depois saiu de verdade
Aí já era mais clarinho
Tinha motivo
Ficou dourado, todo bonito
Olha! Tem até cheiro
Cheiro de maçã
Bateram um retrato
Chamaram de "aquarela"
Tem cor de mel
Não sei
Talvez café
Ele era meio torto
Na verdade, muito
Mas o era porque não tinha pretexto
Aí foi ficando amarelo
Depois saiu de verdade
Aí já era mais clarinho
Tinha motivo
Ficou dourado, todo bonito
Olha! Tem até cheiro
Cheiro de maçã
Bateram um retrato
Chamaram de "aquarela"
Um dia, quem sabe
Saiu a hora do começo
Era cinco da tarde
Mais cinco minutos de atraso
Nem mais um segundo
Somavam-se três ou quatro
O tempo passa?
Toc, toc
Chegou
A vida lá fora tem gosto de que?
Melhor esperar
Tic, tac
A hora chegou
Sempre a mesma história
O começo adiado, remarcado
Só esperando ser recomeço
Um dia, quem sabe...mas melhor esperar
Era cinco da tarde
Mais cinco minutos de atraso
Nem mais um segundo
Somavam-se três ou quatro
O tempo passa?
Toc, toc
Chegou
A vida lá fora tem gosto de que?
Melhor esperar
Tic, tac
A hora chegou
Sempre a mesma história
O começo adiado, remarcado
Só esperando ser recomeço
Um dia, quem sabe...mas melhor esperar
Difusão
Era mês de outubro
As árvores nem tinham folhas
Ela balbuciava letrinhas miúdas
Quase nem tocava os lábios
Num instante percebeu um clarão
Olhou toda espantada
Ela sussurrou
"Queria ser o sol"
Meio dia e ela sentada
Tocou uma música
Ela levantou e falou bem baixinho
"Vou ser o sol"
Quatro da tarde
A música parou
Ela fechou os olhos e disse
"Ele agora sou eu"
No meio da noite
Ela tinha mechas no cabelo
Nem precisou gritar
Ela era ele
As árvores nem tinham folhas
Ela balbuciava letrinhas miúdas
Quase nem tocava os lábios
Num instante percebeu um clarão
Olhou toda espantada
Ela sussurrou
"Queria ser o sol"
Meio dia e ela sentada
Tocou uma música
Ela levantou e falou bem baixinho
"Vou ser o sol"
Quatro da tarde
A música parou
Ela fechou os olhos e disse
"Ele agora sou eu"
No meio da noite
Ela tinha mechas no cabelo
Nem precisou gritar
Ela era ele
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Violeta
Era quase azul. Os olhos claros fugiam do rosto instintivamente. Da boca escorriam monossílabas de mimo infantil.
Era bucólica, quase inexistente. Se lhe rogassem um não, as sobrancelhas ruivas relaxavam na testa em segundos. Os seios contraíam, suspiravam, se perpendiculavam furiosos.
Era uma criança? Às negações. Mas, ah, os olhos não mentem. A pureza da pele e da manha contrastava com o cabelo ruivo. O labor da garota persuadia o demônio nas segundas e quartas. Na íris de cheramy fumegavam todas as sementes da Babilônia; pingava dela as gotas de Adamastor, maldição truncada de uma resistência e impulsividade de algo maior. Caixa de Pandora.
Era Vênus? Se se incitavam os lábios café com leite faziam renascer Madalena em carne viva. O sangue das madeixas escorriam pelos ombros nus, e os riscos ruivos da testa, agora, levantavam, desalinhavam, pediam.
Era a personificação do contraste da idade abstrata. Vermelha e anil.
Era grande. A mulher dos sonhos freudianos, a musa do inconsciente proibido.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Decência alternativa
Munia nas pálpebras do homem todo o cuidado indecente que lhe fora rogado. Sobre a mesa de centro, o livro de L. H. lawrence repousava há horas apenas. Soava, pelo imóvel, os gemidos da loba indefesa e congruente - estridente e melancólico era o som emitido. De fora, os vizinhos dormiam em plenitude, sem desconfiança nem ardor particular... Por sorte.
Cada minuto da ceia vinculava lesmas e semanas. Para o público, curtos tic-tacs do relógio; para os protagonistas, longas badaladas impulsivas...
Praia
Eu queria que fosses mar. Mas um mar calmo e ordeiro nos dias quentes, e um mar sorrateiro e insólito nos invernos. Se a tua praia sucumbir ao meu sol, nos vemos ao pôr: pôr o amor em cada canto, em cada gesto. Pôr-te em mim, às quatro da tarde ou às cinco da manhã, onde tua água encontrará de mansinho meus hélios confusos.
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