segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Decência alternativa


  Munia nas pálpebras do homem todo o cuidado indecente que lhe fora rogado. Sobre a mesa de centro, o livro de L. H. lawrence repousava há horas apenas. Soava, pelo imóvel, os gemidos da loba indefesa e congruente - estridente e melancólico era o som emitido. De fora, os vizinhos dormiam em plenitude, sem desconfiança nem ardor particular... Por sorte.
  Cada minuto da ceia vinculava lesmas e semanas. Para o público, curtos tic-tacs do relógio; para os protagonistas, longas badaladas impulsivas...

Praia


Eu queria que fosses mar. Mas um mar calmo e ordeiro nos dias quentes, e um mar sorrateiro e insólito nos invernos. Se a tua praia sucumbir ao meu sol, nos vemos ao pôr: pôr o amor em cada canto, em cada gesto. Pôr-te em mim, às quatro da tarde ou às cinco da manhã, onde tua água encontrará de mansinho meus hélios confusos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Exílio



    Enchia as folhas da caderneta com palavras ignóbeis, externas a toda atenção. A lua talvez ajudasse no desvio paralelo da coesão, com toda a graça de amante universal. Inspirava o desconhecido, portanto, fazendo-me desfiar atalhos anti semânticos e subversivos.
    Ao rodopiar a cabeça em noventa graus e simetria, percebo a particular solidão. Quem, além da melancólica existência se encontrava ali? As estrelas. A lua. Se se desestressar compondo textos sana, sucumbirei ao ato. Aliás, tão só, a arquitetação dos seres e situações invisíveis estimula o pensamento.
Se chora, à luz do luar, viabiliza o solitário encontro. Não há, enfim, mais relutante fuga das infelicidades, desalinhos e parábolas da vida do que a marrom caneta, feiticeira do homem.
    Clara escuridão, silêncio.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Ponto de vista


Na janela do quarto havia um poema.
No poema, uma janela do quarto.
Havia no quarto um poema de janela.
No poema da janela havia um quarto.
No quarto do poema, uma janela. 
No quarto, poema e janela,
Havia um ponto de vista.



segunda-feira, 31 de março de 2014

Inércia



Há dias não se embebedava com palavras escritas; há horas limitava-se às palavras poucas da fala, por pura necessidade humana. Em dias quentes, oposto ao que era de seu costume, cobria-se com o lençol da angústia, sem ao menos conjecturar sobre o motivo das gotículas que lhe rolavam rosto abaixo. Antes, nestes mesmos dias quentes e melancólicos, debruçava-se em umas folhas de papel, suas queridas confidentes - como dizia Freud, "se a boca se cala, falam as pontas dos dedos" - que lhe acalmavam lentamente. No entanto, hoje, não mais exercita os punhos. O motivo? não se sabe. Sua quietação provocou um pseudoconforto, mas que, intrínsecamente, lhe arranham as entranhas. 

Dança


Torna-se necessário adaptar-se às ilusões alheias em tons rodopiantes - os reféns de devaneios impróprios da sanidade. Parece-me que tudo ao redor se trata de doenças deselegantemente contagiosas. Na dança, levam-me consigo, e junto, suas dores. O que me resta, enfim, é dançar. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Imensa

              
Sonha, pequena, pelos ruídos do amor a rosa
Tão rosa fúnebre que cala os dedos à noite
Tão tonta, turva, inebriada, caminha sem rumo
Tão minha, tua, vossa, de ninguém a pequena.
Derrama nos lençóis a carícia do mal-me-quer,
esse mal-me-quer que a afaga e esfaqueia.
Pobre pequena que gira, gira, gira, buscando...
Busca o rumo do carinho nos perfumes fortes, 
perfumes das noites que passeia nos quartos
Número 22, 34, 13... Amanhã já não se sabe.

Pobre pequena que arranha no arranha-céu as unhas do pé
Pobre pequena que voa agora, bem devagarinho, despida.
"Que bela pequena!" sonham os pássaros
e voa como eles, tácita. 
Um dia há de cair!... se cair.
Se cai, verga ao asfalto o beijo do amor. 
Prova agora o deleite do eterno. Infinitamente.
Vai pequena vossa, sonha agora.