segunda-feira, 31 de março de 2014

Inércia



Há dias não se embebedava com palavras escritas; há horas limitava-se às palavras poucas da fala, por pura necessidade humana. Em dias quentes, oposto ao que era de seu costume, cobria-se com o lençol da angústia, sem ao menos conjecturar sobre o motivo das gotículas que lhe rolavam rosto abaixo. Antes, nestes mesmos dias quentes e melancólicos, debruçava-se em umas folhas de papel, suas queridas confidentes - como dizia Freud, "se a boca se cala, falam as pontas dos dedos" - que lhe acalmavam lentamente. No entanto, hoje, não mais exercita os punhos. O motivo? não se sabe. Sua quietação provocou um pseudoconforto, mas que, intrínsecamente, lhe arranham as entranhas. 

Dança


Torna-se necessário adaptar-se às ilusões alheias em tons rodopiantes - os reféns de devaneios impróprios da sanidade. Parece-me que tudo ao redor se trata de doenças deselegantemente contagiosas. Na dança, levam-me consigo, e junto, suas dores. O que me resta, enfim, é dançar. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Imensa

              
Sonha, pequena, pelos ruídos do amor a rosa
Tão rosa fúnebre que cala os dedos à noite
Tão tonta, turva, inebriada, caminha sem rumo
Tão minha, tua, vossa, de ninguém a pequena.
Derrama nos lençóis a carícia do mal-me-quer,
esse mal-me-quer que a afaga e esfaqueia.
Pobre pequena que gira, gira, gira, buscando...
Busca o rumo do carinho nos perfumes fortes, 
perfumes das noites que passeia nos quartos
Número 22, 34, 13... Amanhã já não se sabe.

Pobre pequena que arranha no arranha-céu as unhas do pé
Pobre pequena que voa agora, bem devagarinho, despida.
"Que bela pequena!" sonham os pássaros
e voa como eles, tácita. 
Um dia há de cair!... se cair.
Se cai, verga ao asfalto o beijo do amor. 
Prova agora o deleite do eterno. Infinitamente.
Vai pequena vossa, sonha agora.